Nelson Cruz: o campeão da determinação

Nelson Cruz: o campeão da determinação

Nelson Cruz fez o que parecia impossível. Num dia normal saiu do trabalho (na secção de congelados e produtos lácteos do Jumbo de Almada) e foi sagrar-se, aos 38 anos, no novo Campeão Nacional de Corta Mato.

 

1. Quando é que descobriu a paixão pela corrida?
Sempre fiz desporto, desde o liceu: futebol, andebol, basquete, badmington, futsal… Gostava mais do futebol, como todos os miúdos, mas foi no atletismo que comecei a destacar-me. Tinha entre os 12 e 13 anos, treinava com amigos e conseguia sistematicamente melhores resultados com menos esforço.

2. Em que momento deixou de ser um hobby para passar a ser uma parte da sua vida com contornos profissionais?
Com 17 anos já entrava em competições. Lá me deixei convencer que no atletismo tinha mesmo uma vantagem competitiva. O meu treinador, com quem trabalho há 16 anos, fez a diferença.

3. É preciso uma grande disponibilidade mental para o que faz (conciliar tudo). O que o motiva? O que o faz correr?
Sou um atleta amador, por isso tenho de conciliar a minha profissão com o atletismo e claro, com a família. A minha vida é uma correria constante, mas a base de todo o equilíbrio é o meu apoio familiar. O preço a pagar é não ter praticamente vida social. Mas tudo o resto compensa.

4. Enquanto percorria aquele ultimo quilómetro da corrida que o consagrou campeão, pensava no quê? Na vitória?
As vitórias são a confirmação de que o sacrifício vale a pena e de que tenho de continuar a melhorar, a fazer mais, a dar atenção a pormenores que podem fazer a diferença. Na prova nacional de corta-mato que ganhei recentemente tive o apoio dos meus colegas de treino, juvenis, seniores, as famílias…

5. Como é um dia seu, tipicamente?
Levanto-me às 8h00, levo as miúdas à escola e treino 2 horas. Um treino mais intensivo – corrida, alongamentos, por vezes ginásio para exercitar flexões abdominais. Faço uma pausa para comer e mais tarde almoço por volta das 12h30. Depois tenho exatamente 1 hora para descansar antes de começar o meu turno no Jumbo de Almada pelas 14h30. Chamo-lhe a minha hora da sesta, é uma hora só para mim apesar de raramente conseguir dormir. Trabalho das 14h30 às 00h30 no setor dos congelados e produtos lácteos. Tenho um intervalo de 2 horas para jantar que aproveito para fazer o 2º treino entre as 18h30 e 20h30 ao ar livre, no Parque da Paz. Às 22h00 tenho mais uma pausa que reservo para jantar. Como tenho balneários equipados, consigo conciliar a rotina de trabalho com o exercício físico e claro, preparando com antecedência as refeições.

6. O seu exemplo mostra que com força de vontade qualquer pessoa pode estar minimamente em forma, mesmo tendo os compromissos de uma vida comum. Quais são os ingredientes para o conseguir?
O meu sucesso depende de uma rotina muito controlada. Confesso que por vezes sinto-me cansado, mas todos temos dias maus e temos de enfrentar as dificuldades de pé, no atletismo e na vida. Não se baixam os braços. O atletismo foi uma conquista que hoje faz parte do meu equilíbrio físico e emocional. Depois do treino sinto-me bem. Não só fisicamente. O exercício melhora a minha autoestima e o meu humor. Sinto que tenho mais paciência para todas as tarefas, torno-me até pacificador, com a família, com amigos, com colegas.

7. Consegue encontrar alguma semelhança entre a sua atividade profissional no Jumbo e a corrida? E diferenças?
A persistência é a chave para manter o ritmo. Quando estou a trabalhar ou a treinar estou sempre em contagem decrescente: imponho objetivos a mim próprio e corro atrás deles.

8. Quais são as regras de ouro na alimentação de um desportista?
Não faço um programa alimentar específico, mas tenho aconselhamento de um nutricionista. Almoço em casa e tento compensar o treino intensivo com o consumo de hidratos de carbono, arroz ou massas com carnes brancas (frango, peru), ou peixe (atum, bacalhau, salmão, pescada). Vou variando entre a carne e o peixe. A minha mulher ajuda muito, deixa-me saladas e fruta descascada já preparada.

9. E quais não dispensa?
A meio da manhã e depois do treino como sempre 1 banana, 1 maçã, uma barra de cereais e um batido proteico.

10. O que faz para evitar lesões?
O aquecimento e os alongamentos antes e depois do treino são essenciais. Outro ponto importante para quem quer começar a treinar é diversificar o piso para que o impacto não seja sempre igual: rampas, escadas, etc.

11. A corrida está na moda. Tem alguma explicação para o fenómeno?
O atletismo é muito saudável, sobretudo para os jovens mas por vezes parece-me que as pessoas dão mais prioridade ao equipamento e menos à preparação física. Fazer exercício e correr faz-me sentir bem mas temos de nos preparar devidamente. Convém ter um plano de treino.

12. Para além dos treinos e da alimentação que outros conselhos saudáveis pode dar a quem nos lê?
A chave é o equilíbrio para quem quer começar a treinar: uma alimentação equilibrada sem exageros, a correta hidratação e um treino variado. Quem não pratica desporto de forma regular tem de se preparar para começar a correr.

13. Que planos tem para o futuro?
Os jogos olímpicos! Já estive em Pequim e vou correr a maratona de Praga a 8 de Maio para tentar o apuramento para os jogos olímpicos do Rio de Janeiro. A minha evolução enquanto atleta tem sido lenta mas sólida. Gostava de treinar até tarde e continuar a apoiar e treinar equipas jovens como já faço atualmente.