A lição de superação de António Nascimento

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Já ouviu falar no Ultraman? Uma prova de triatlo para heróis da resistência física! Descubra a experiência de António Nascimento, o único Ultraman português.

 

1. Como é que surgiu a ideia de ser um Ultraman?
Desde sempre que estou ligado ao desporto e à prática de exercício. Sou faixa preta de jujitsu, que pratiquei muitos anos no Brasil e fui 4 vezes campeão do mundo. Sou licenciado em educação física e formação desportiva. Dou aulas desde os 15 anos, altura em que já era cinturão roxo. Comecei a fazer o triatlo em 2003 em homenagem ao meu Pai cujo falecimento me marcou particularmente. As provas de Ironman e Ultraman começaram mais tarde.

2. Como caracteriza as diferentes modalidades do Ultraman enquanto provas de resistência – natação, corrida, ciclismo?
São provas muito duras que implicam meses de preparação física. O final do Mundial do Ultraman é tradicionalmente no Havaí onde participam apenas 35 atletas de um total mundial de 135. Participei em 2014 como atleta amador, o único a ser apurado para a prova final. O Ultraman implica um treino muito funcional adaptado à prática de 3 modalidades: natação (1ºdia: 10km no mar), ciclismo (2ºdia: 273,5km) e atletismo (3ªdia: 84,3km). Quando treinava, começava às cinco da manhã o 1º treino de 2 horas e depois ia trabalhar. Aos fins de semana fazia treinos mais longos, ia por exemplo até às Caldas da Rainha de bicicleta. Para o treino de natação, nadava na praia da Torre e na piscina. Em 2012 no País de Gales tive de nadar os 10km num lago com a água a 5°C de temperatura – foi duríssimo mas a meio da prova apareceram-me de surpresa alunos meus a incentivar-me. Foi um momento inesquecível que me tocou profundamente. Achei que estava a delirar do frio e do esforço físico! O momento da prova é muito solitário mas como tenho sempre apoio e incentivo acabo por me sentir em família. Quando perco começo logo a fazer planos para a próxima prova, para corrigir e melhorar o desempenho. Quando ganho, a vitória sabe bem mas depois sinto um certo vazio…

3. Para completar uma prova destas é preciso um esforço sobre-humano. Na preparação é o corpo que puxa pela mente, ou é a mente que puxa pelo corpo?
O equilíbrio entre os diferentes elementos é o mais importante e claro, ter um treino planeado e equilibrado com as outras vertentes da nossa vida. O ditado diz que todos devemos na vida “fazer um filho, plantar uma árvore e escrever um livro” e porque não atingir uma meta de superação física, no atletismo ou noutro desporto? O sucesso recente das maratonas é bem o reflexo disso. As pessoas precisam de objetivos fora da sua rotina, e de partilhar esses objetivos com amigos, colegas e família. As vitórias e conquistas partilhadas têm outro valor. Acho que as pessoas têm de procurar diminuir o ritmo e tentar ter hábitos mais saudáveis. Seja qual for a razão que leva as pessoas a começar a praticar desporto (perder peso, estar em forma, ter um ritmo mais saudável, fugir à rotina) o importante é planear bem o exercício físico e acreditar que todas as barreiras se podem superar. Tenho alunos que não são atletas profissionais e que já foram fazer o Ultraman. Qualquer pessoa pode ser um campeão. Tudo depende da motivação.

4. A motivação é uma vertente do treino que pode ser trabalhada? Ou é daqueles atributos que “está lá ou então não está”?
Para mim não existem impossíveis, seja como atleta seja nas minhas aulas. Sou muito determinado. Se temos um sonho, um objetivo então vamos conseguir. Tenho 46 anos e continuo cheio de projetos! Vim para Portugal para montar um projeto desportivo e acabei por ficar por cá. Devo ser um brasileiro com defeito: sou calmo, não bebo nem fumo, não sou de festas e saídas à noite. Hoje sou Director Técnico da Academia e Personal Trainer. Adoro o que faço e acredito mesmo que qualquer pessoa pode atingir objetivos a nível da prática desportiva desde que se empenhe e acredite.

5. Que dicas nos pode dar para manter uma boa hidratação ao longo do dia?
A hidratação é essencial. Quando falamos em ter hábitos mais saudáveis, para além do exercício físico e da alimentação, não podemos esquecer a hidratação. A chave é nunca ter sede. Podemos beber, água, sumos. Nalgumas provas desportivas deram-nos água de coco o que é uma ótima alternativa.

6. Qual é o papel do repouso perante uma modalidade tão exigente como a que pratica?
O descanso é mais um dos elementos decisivos para atingir esse equilíbrio. Pelo menos 8 horas de sono por dia! Quando treinamos para provas o ideal seria praticar exercício, comer e dormir e depois repetir o ciclo. Nas nossas rotinas isso não é possível, por isso temos de compensar com um bom descanso.

7. A sua dieta é estruturada de forma minuciosa? Tem acompanhamento por um nutricionista? Nesse caso quais são as regras de ouro na alimentação de um Ultraman?
A minha alimentação durante os períodos de treino e prova é muito específica. Sou acompanhado por uma nutricionista e tenho uma dieta com muitas calorias para compensar o esforço físico. Em prova chego a comer massa com atum ao pequeno-almoço, depois a meio da manhã barras de cereais e batidos com proteína. O almoço pode ser puré com salsichas como comi nas provas no Havai. Os outros atletas internacionais estavam estupefactos e “invejosos” porque os almoços deles eram à base de batidos, géis e comprimidos. Não tenho muitas restrições.

8. E no dia-a-dia? Quais são os alimentos que procura incluir na sua dieta no pré-treino?
Quando não estou em fase de provas o meu pequeno almoço é um sumo com uma sandes mista e fruta. O importante é a variedade e ter um prato colorido. Adoro um bom cozido à portuguesa! Acho que ser demasiado restritivo causa muito desgaste.

9. Quem já chegou a fim de uma prova Ultraman provavelmente atingiu o pico da ambição. Tem outros objetivos ou metas que gostaria de atingir?
Já estou reformado das competições profissionais mas não posso parar. Estou sempre a escrever os meus objetivos, a criar painéis com imagens dos próximos projetos. A vida é demasiado curta para ser vivida só ao fim de semana. As pessoas têm de tentar fazer algo de que gostam no seu dia-a-dia. Problemas e dificuldades todos temos, é preciso é trabalhar para ultrapassar barreiras. Quando cheguei a Portugal senti que o mundo era muito fechado mas com o tempo fui ganhando a confiança das pessoas. Temos de ter vontade de mudar e melhorar a nossa vida, a falta de tempo não é desculpa. No meu trabalho acho que sou mesmo chato, não desisto de ninguém.

10. Que conselhos simples pode dar a quem não pratica desporto intensivo mas está consciente de que o exercício físico é importante para a saúde?
Uma das prioridades para quem quer começar a prática desportiva e em particular o atletismo é antes de mais consultar um médico e fazer um “check-up”, depois pode fazer uma avaliação física num ginásio para saber se está apto para começar a fazer as suas caminhadas ou corridas. A escolha do equipamento também é importante. O calçado deve ser adaptado ao pé de cada um e ao tipo de piso onde as pessoas vão praticar. Só assim se evitam as lesões. Se for possível ter acompanhamento profissional é o ideal. Aqui no ginásio chego a ensinar pessoas de todas as idades a nadar e a andar de bicicleta. Podemos começar em qualquer altura da vida desde que o treino seja bem planeado.